quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Medo I

O prelúdio vem sido escrito há anos.
Previ a chegada ao precipício.
A brisa leve levantando os cabelos, era, na verdade,
Tormenta.
Foi quando a porta, que não foi aberta,
Estourou os tímpanos ao fechar violentamente.
Nessa hora, eu previ.
Ah, o amor que não vingou,
Aquele amor da janela do apartamento
Cuja vista era de um cenário de curta-metragem,
Nessa hora, eu previ.
Quando eu já não soube mais cantar.
Quando eu já não soube mais escrever.
Nessa hora, já estava no pescoço de areia movediça.
Não precisava mais prever.
O inevitável encontro final com o medo.
Vou falar sobre ele.
Sorrateiro, vingativo, impetuoso,
Prevalecendo-se da minha alegria.
Escondendo-se na bochecha com a risada mais bem paga.
Felicidade diluída no fundo do copo.
Não sabia que suas calmarias eram tentáculos
Impedindo a água de passar.
Quando a barreira deveria ter sido exposta
Pra deixar a água jorrar.
O medo veio com a água que não jorrou.
Com a água que é vida.
E que não proliferou.
Se eu pudesse dizer uma coisa
Eu diria:

Socorro.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Cru

Pele
Fina e delicada
Dura e escamosa
Irrompe de ti vermelhos vasos
Canais frágeis
De nossa pequinez.
A nudez por baixo dos panos
Por baixo dos poros
A fragilidade que ela expõe
Um pedaço grosseiro de carne
Sem romances ou pausas
Sem lágrimas ou mágoas
Somente carne e canais vermelhos e frágeis.
Quando vejo tua face em foto
Quando vejo tua face viva
Sinto amor. Sinto rancor. Sinto muito mais do que consigo nomear.
Ora, quando vejo sua pele por baixo
Quando vejo a fragilidade dos ossos quebrados
Dos olhos fundos
E se sua respiração indica o abismo
Não te vejo mais.
Não te sofro mais.
Desconheço-te.
Desconheço pedaços incompletos e desconexos.
Ouço teu eco, embora não possa mais senti-la.
Volte a si, sare!
Para que eu possa tê-la de volta, e não apenas o casulo
Envolto de pele
Que chamamos de corpo.

Mente
Tudo que sou, já fui
Tudo que fui, não é
E o que serei,
Ai de mim, o que seria?
Se não houvesse guardado
Nos recôncavos mais esquecidos
Nas reentrâncias mais pertinentes
Não haveria um eu para me ser.
Meu corpo escorre memória.
Se abres meu corpo, não podes ver.
Mas se tens a coragem de me ler
De entrar em meus olhos e perceber
Verás que tudo que sou, já fui.
Tudo que fui, não é e o que eu serei...
Ah, mas, disso nunca se sabe.
Se existe alma, lá estaria?
No labirinto sinuoso da minha inteligência?
Pois é lá que se descobre o amor
Lá se descobre quem sou.
Existo lá, porque há um lugar para me caber.
E se me não me falha a memória,
Já me amei antes, não é?
Minha consciência determina.
Meu ser se ajusta.
Existo, pois sei. Pois acredito.
Durmo com medo de perder o domínio
Da faculdade do pensar.
Pois, sem saber que estou aqui,
Já não existo mais.

Coração
Desabo em mim mesmo, oh graça de ser quem sou
Choro e rio
Canto e espreguiço
Me contento de sorrir
Me alimento de viver
Me contamino de amar
Mas também
Reluto em aceitar
Aceito desistir
Começo a pensar
Que meu coração só bate as horas.
Na quina da garganta.
Que só bate os compassos errados
Na bolota entupida.
Só há sentido em ser se há sentimento vindo.
Sentimento passando.
Sentimento correndo.
Meu olhar, porta dos meus segredos da consciência
Meu crânio, obra da evolução, caixa de segredos e protetora
Meu olhar... ah, meu olhar.
Ele me entrega quando te vê.
Tudo em mim se dilata.
O mundo todo se dilata.
E eu só quero sentir, sem nada mais ver.
E tudo explodir, sem nada mais querer.
Mas o coração
Músculo indiscreto e presunçoso
Oras, quem mandou me trair?
Ou foi minha mente? Ou não há explicação?

Alma
Se puderes, me toque aqui.
Se puderes, me ame aqui.
Pois há um eu incorpóreo que percorre o éter
E que se vê num palco
Se vê num lance de escadas
Se vê num parapeito, pronto a pular sem proteção.
E grita loucamente pra ser amado e tocado aqui.
Há algo que independe de mim.
Há algo que sobrevive sem meu querer.
E que reluta e que compõe.
E que escreve.
Que me resume bem.
Não em palavras.
Mas em cores,
Talvez acordes,
Certeza que tem risadas e lágrimas.
Há um eu incorpóreo que independe de mim e paira suavemente pelo éter.
E que sou eu no mais puro estado.
Veja no espelho, de olhos fechados,
Ouça no travesseiro o seu eu de boca muda.
Ouça no silêncio o que ele diz.
E, sim, saberás sobre teu eu incorpóreo que independe de ti e paira suavemente pelo éter.
Eu, vagabundo que sou,
Sei bem pouco. Sei só que
Mente, coração e pele.
Preciso deles para domá-lo.
E, não, simplesmente,

Sumir.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Os 13 porquês

Eu não vou deixar 13 fitas contando as coisas.
E nem consigo endereçar a minha própria salvação.
Deus? Eu mesmo? A estrutura psico-emocional da minha família?

Meus amigos?

Meus amigos...
Meus amigos.

Eu não vou deixar 13 fitas porque aquela época mais confusa já passou e eu saí de lá.
Mas eu tinha motivos.
Eu tinha motivos.
Ah, se eu tinha.
Mais de 13.

Eu tinha motivos de sobra para me odiar. Para não me reconhecer. Para não me sentir amado e nem me amar.
Eu tinha motivos de sobra, vozes de sobra ecoando nos meus ouvidos ao chegar em casa e antes de dormir.
Eu tinha o deboche e o desrespeito,
o menosprezo.
Mas tinha um certo intelecto. Talvez nem de todo bom.
Não me levem a mal, todos tem, mas eu percebi que, com o meu jeitinho, eu conseguia outras coisas mais.

A arrogância que me salvou.
O puxa-saquismo me salvou.
E, nessa salvação, quase me coloquei no lado de lá, no lado dos que fazem os outros chorarem.

mas, não!
quase 10 anos depois e eu to aqui
vivo e bem amado
gente, me amo bastante, mesmo tendo meus dias difíceis, mas aí eu paro e olho meu sorriso e aí eu penso "puts! sorrisão lindo da porra!"
e mais do que isso
eu tento ser um cara massa, que tenta ser um cara bom para os outros
e está ok um homem, um menino, um rapaz ter essas inseguranças quanto a aparência
quem falou que não é compatível com a masculinidade?
e está ok falar sobre isso com alguém e está ok ouvir isso de um homem amigo seu.
E se tem uma coisa que eu venho entendendo

Homens
está ok ser o que você é
está ok, mais do que bem, ter sentimentos
ser tomado pelas emoções
não supervalorizar o sexo

Não seja o cara que só vai consumir corpos
Achando que é vitória nem considerar o outro
Sexo é bom quando é vivido na plenitude
quando as permissões vêm com um desejo latente
e se multiplicam na troca verdadeira,
no entendimento dos corpos e dos desejos particulares
mesmo que seja o interior de apenas uma madrugada
e nada mais.
Somar apenas por somar... não tá com nada.
uma lista furada.

Eu sinto que tive mais de 13 razões.
Graças a muitas forças, eu estou aqui hoje.
Seja gentil, porra.
Gentil com quem você não conhece.
Entenda que você não entende o que o outro sente.
Seja educado, prestativo, gentil e abrace.
Oh, meu Deus, abrace o outro.
Ame o outro, sempre que possível.

O resgate vem em muitos detalhes.

sexta-feira, 3 de março de 2017

Fabuloso I

Talvez
Se tivessem me apresentado a possibilidade
Se o conceito tivesse vindo depois da liberdade
Hoje
Talvez hoje eu fosse fabuloso!
Talvez eu tivesse estourado no seio dos pampas
Ou fosse menos aprumado e mais jocoso
Sendo mais fiel ao singelo desejo da estampa
Agora esticada em minha camiseta
Eu poderia dançar sem articulações
Os ossos girando nos eixos
Explodindo em vibrações de cores e amores
Poderia até ser perfeito
Se o conceito tivesse vindo depois
Eu não precisaria me dar um nome

Poderia desrotular pra cada vez mais lacrar
E me ser pra sempre o que me sentiria em cada hoje!

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Resta

O que eu sinto que sou já não é mais.
Resta esperar.
A carta, a ligação, a chegada, a pousada,
A mão, a face, a música que tem meu nome,
Meu nome não é mais meu nome
Meu corpo nem mais é meu.

Resta esperar a rematrícula.
Resta o resto do prato cheio de comida insossa.
Metade do que sou pesa numa outra balança.
Metade do que fui já não canta nem mais no mesmo tom.

Ao pertencer a mim, passei a não estar com mais ninguém.
Ao sugerir mudanças, comecei a permanecer intacto.
Como uma agulha no furacão,
Sumi feito um sonho de criança.

O eco resumido em desacato,
Todas as autoridades tremem
Diante de meu novo contentamento
Que não mais é por completo,
Mas se resume em poucos movimentos,
Ser. Levar. Aguardar.
Na sobriedade das palavras escapam-se os silêncios,
O último silêncio, porém,
Esse, não!

Esse vem a galope.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Brevemente

Eu te vi brevemente dias atrás.

Vi você e desejei beber um copo de uísque. Depois outro. Depois mais um.
Vi você e desejei não ter corrompido minhas memórias.
Desejei não ter sobrevivido.

Eu vi você e lembrei de seus nomes.
Aline. Cristina. Luan. João. Eric. Mariana.
E tantos outros nomes que já não me recordo mais.

Ainda bem que eu já não tinha mais nada pra dizer.
Bom,
Eu até tinha, mas nada pronto no momento.

Porque eu me sinto vivendo num elevador.
Porque eu sinto que morri.
Sinto que não estou mais aqui.


Sinto que estou bem ao mesmo tempo dentro do elevador.
Depois de todos esses anos que eu deixei você/vocês irem embora.
Onde estão? Que fazem?


Eu vejo um breve lampejo de brevidades que me fazem indagar

Qual a hora certa pra um novo amor?
Existe tempo certo pra ser pra sempre?

Eu perdi amores como quem perde dentes. Reluta, mas perde.
Eu ganhei breves momentos de afeição carnal e breves momentos intensos de pertencimento, mas que me deixaram ao lado do mesmo sombrio cadáver.

Eu sou perfeito em todos os sentidos quando ouço as músicas que tocam no elevador.
E brevemente suavizo o áudio pra poder cantar junto.
Brevemente bebo um copo de uísque.
Tenho medo das cordas se romperem e, se isso acontecer, juro que não farei mais nada que possa magoar meus cabelos negros.

Por favor, me ligue por um breve instante.
As gestalts zombam sem chaves ou fechaduras.

Brevemente me entrego novamente.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Ana.

O carvão queima minha garganta,
que teima em arranhar as tintas dos azulejos.
Não há espelhos, não há rotas segundas.
Somente desejos.
Eles me escapam, como se de mim viessem, mas a mim não pertencessem.
Parece-me que a vida espera mais de mim.

Confesso que não há nada entre o abismo e eu.
Apenas um suspiro instigante como um edifício no meio do mundo.
Parece-me que estou prestes a cometer um desmazelo.
Momentos que pedem mais trabalho, mais tempo do que posso oferecer.
E o amor consome e some.

E fecho-me. De repente.

Repentinamente, o azul se abre.
O céu com arestas celestes.

Mostrando que há um fim. Um que não devo tocar.
Quem é você que desmonta meus finalmentes? Aqueles que eu treinei pra serem só meus?

E esse recomeço no meio do meio?
E nesse vão das coisas que a gente disse...
Que a gente cantou...
Está à nossa espera?
E de sem querer em sem querer começa a fazer parte. Em qual rua?
Encostando eu na tua, você na minha. Nós na nossa. 

Ana vibraria por viver essa meia aventura desconexa e injusta.
É isso aí.