domingo, 17 de maio de 2026

Pressa

Ando com tanta pressa
E com tanta urgência
Que qualquer hora dessas
Vou passar correndo
E me deixar pra trás.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Quase samba

Como pode
A terra insalubre e quase morta
Ainda germinar poesia?

Como pode o mar seco de alma
Trazer a calma
E não ondular?

Como pode o corpo roto
Mendigante sujo e quase morto
Ainda se desdobrar em música?

Quase perto da morte
Faço um samba
Para desenrolar a sorte.
Só não danço mais porque já quase fui.

terça-feira, 28 de abril de 2026

Ponto.

Com este recado
Encerro meu ofício
O último ato desse roteiro.
Finalizo meu legado
Entrego meus lápis
E deserdo um país inteiro.
Chapinhei demais nesse lamaçal
Ledo desvio de quem se enganou
E, por fim, afundou.
Não escrevo mais, isso acabou.
Encaixoto as rimas mais frágeis
E as arremesso do desfiladeiro
Uma vez que sem musa
Ou interlocutor
Desapareço.
Havia mais a discorrer sobre nós
Um sovina e o outro, algoz
Quem afugenta não sabe adorar.
Nem sei mais amar.
Feito um show derradeiro
Que já presumia fim ainda no ventre
E a mórbida constatada piada
De crer que seria pra sempre
.

domingo, 12 de outubro de 2025

A última música

Hoje, eu quis ter te ligado
e, por entre muitos motivos, ter ouvido sua voz.
Da última vez, você cantava sobre
Como, numa outra vida, você permaneceria
e eu não seria como alguém
que escapa, foge, vai embora.

Nós nunca fizemos nenhunma promessa,
mas seria legal sermos nós contra o mundo.
Você é uma estrela pois, se o mundo fosse um filme
você seria a melhor parte dele.

Mas você disse muito antes, sem me dizer nada
que eu pegasse leve com você.
Como um recado do futuro, dizendo
que você era jovem e não sabia o que estava fazendo.
Você cantou e pediu calma, pois ainda estava aprendendo.

E olha que eu era apenas um cara
e você era só você, sei lá, meio especial
e aquele sorriso de antecipação
de criança
que a gente trocava
como se a próxima emoção fosse sempre ser a melhor que a gente poderia dividir.

Eu sinto sua falta como se fosse ontem
o derradeiro fim da nossa história de boa amizade.
Queria te ligar e te dar parabéns por mais um ano
mas o passado ao qual me agarro
não existe
Mas como você cantou num dos dias mais tristes da minha vida
"O universo foi feito pra ser visto pelos meus olhos".

Você me encantou por tanto tempo e eu fiquei em suspensão
diante dessa beleza que eu só quis apreciar de longe
nunca intencionei nada mais.

Mas, agora, preciso me deixar deixá-lo ir
"Quão raro é existir?".

segunda-feira, 19 de maio de 2025

Alguém [28]

Alguém que proteja seu nome por amor em um codinome beija-flor
Alguém que talvez não tivesse visto flores por onde veio se não te amasse tanto assim
Alguém que fique te esperando a semana inteira pra te ver sorrindo e cantando

Alguém que te ame de janeiro a janeiro.

segunda-feira, 12 de maio de 2025

Um nome do mar

Vasto, imenso e profundo
Sonho com o mar desde criança
Abraço cada onda como se pudessem me abandonar
o ar, a luz e a vida de cada poro meu
e somente na água salgada
pudesse me reencontrar.

Oráculo ditou desde o início
que esse menino seria do mar
carregaria no próprio nome a expansão de sentir
de temer, de sorrir, de sofrer e de amar
e cada mergulho seria mais longo que o outro
e, para cada amante, haveria um lar.

Reino inteiro feito para seu morador
o mar me lavou a alma e me devolveu a calma
mostrou o caminho mais inteiro de se perder
que na verdade é se encontrar.
Me consertei nas ondas de ressaca
Um nome feito metade de mar,
um peito cheio de ar
e a inadvertida petulante incorrigível e teimosa
vontade de continuar.

sexta-feira, 14 de março de 2025

Amanhã

Nunca durmo, mas sempre acordo
suado e em meio a memórias irreais.
Sinto sua falta apenas nos dias que amanhecem
e somente desabo nos dias que anoitecem.

Amanhã, creia no amanhã, dizem.
Arriscam 90 dias.
Apostam na libertação química,
na sobriedade advinda de certa apatia,
numa inércia incontestável
que me levará ao esquecimento.

Se pudesse, pelo menos, desaparecer...
Ser feito em pó por um estalido do cosmos...
Eu desejaria que minhas partículas viajassem
a Via Láctea toda para repousar em você.

Posso desaparecer em você amanhã?

quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

Antes que pudesse ter sido

Todo dia a mesma rotina
acordar cedo e tomar um banho de água fria.
Despertar do sonho interrompido
por uma balança que saiu do lugar.

Depois, odiar cada minuto
e detestar cada silêncio que escapa.
Não saber aonde ir nem com quem falar.
Essa é a vida que cabe depois de uma flor
morrer sem desabrochar.

domingo, 29 de dezembro de 2024

Dor

Meu corpo acumula saudade
tanta que faz doer cada entrada.
Você chegou feito um presente
e partiu sem lembrete
mas não sem dizer que me amava.

Restou tão pouco de mim
e nada de nós.

Meu corpo dói pela espera,
por querer te encontrar na próxima sexta
quando toca nossa música tema
e ao me dobrar ao meio para resistir.

Você levou quase tudo
deixou um mísero arremedo de mim.
Ficaram as dores no peito, no dente
na cabeça, nos ombros.
Tentei negar, enfureci
Me pus a barganhar, me isolei
Mas, nunca, por fim, aceitei.

Restou só um estanque de mim
Uma roda que não gira
Um carrossel sem cor.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Aos que (se) perderam

Como alguém que tenta segurar a água com as mãos;
O trabalhador que no último minuto
perde sua condução;
Pelo embaraço de marcar um número a menos
e não faturar o milhão;
A desenganada pitada de sal que estragou o prato,
dois gramas que definiram o desfecho da refeição;
Tal como quando, na pausa da orquestra, o sopro do trompete
quebra o silêncio e arruína a canção;
Feito o pênalti, perdido na fração de segundo
em que a concentração voou com o barulho
da arquibancada que apostava o próprio coração;
Tão ruim como estar no lugar e hora errados
É estar no lugar certo e optar ceder aos pesadelos;
Tipo saber a resposta da equação e marcar a alternativa errada,
por falta de confiar;
E ao ouvir as batidas na porta, o se acovardar
e não receber o amor que se apresenta como possível
e tudo de fantasia e real que poderia ser;
Assim dedico esse drinque cheio de incerteza
aos que se perderam por um fio,
aos que perderam muito por pouco,
aos que deixaram para depois
e para uma próxima a chance de acertar
e abandonaram tudo que teria sido dessa vez.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

Lua em Peixes

Todo devoto ao seu encanto
como o pirilampo cercando a luz
ser entregue ao lamento
de quem ama tanto
que se derrama em cada canto.

Deseja tudo e entrega o mundo
faz do seu objeto a sua vida
para, não pisca, está se arruinando
fazendo-se em pó
e perdendo-se em nós.

Dedicação do mar à lua
espaço pequeno para caber por inteiro
aproveite agora, parta do zero
pois, assim como inicia fácil
se desfaz por completo
noutro breve piscar de olhos
ou num novo poço de sonhos.

terça-feira, 12 de novembro de 2024

Colecionador

Que incômodo essas tripas!
Quem me dera, por fim, arrancá-las
uma por uma até que não sobre nada.
De quebra, chega dessa pele
desse excesso de toques
de maneira mais nobre
quero tirar essa derme primeira roupa.
Uma vez, assim, pois rasgo de mim
também meu pulmão e meu estômago
que comem e respiram a mesma coisa
que não conseguem nem mesmo
segurar suas forças.
Jogo tudo no lixo, não me servem
nem mesmo esses dentes caríssimos
essas unhas bem-feitas
olhos que só veem o que querem
e uma boca que não fala o que deve.
Já meu cérebro, pode ser que melhor seja o chão
a rua, o quintal, a terra ou o vão
jogue-o aos bichos se por ventura puder.
Não quero ter que pensar outra vez.
Mas meu coração, querido,
Esse, não.
Esse você guarde.
Pode ser que você volte a precisar.

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Pedestal

Essa minha pele veste tão bem
os afetos vaidosos de meu amor
Alto e elevado, leve, doce e sublimado
Quem é o rei e que roupa ele veste?
Sentado em seu trono, erguendo seu cetro
Bobo da corte sem derme e sem rosto
faz graça e lambe seu chão
e por onde passa é lá que ele se faz monarca
Dono de tudo e de todos que se adiantaram.
Essa minha pele gasta não veste mais meu rei
meu sol, meu sul, minha estrela azul
Descarta o robe que carrega minha carne
E o esquece sob o sol e que tudo se lasque!
O trabalho já está feito.
Meu rei jamais desceria de seu pedestal.

Após o Carrossel

E agora?
Luzes acesas, sem mais aplauso
O que faço eu agora jogado ao acaso?
Medo e silêncio,
Gelo e distância,
Me antecipei e na covardia e na ânsia
desfiz todo meu rosto
todo meu corpo
todo meu ser.

E agora que não posso mais querer?
Nenhuma música virando poesia
Nenhuma nota coroando a estripulia
Fogo e saudade,
Peito aberto sem piedade.

E agora que o caminho de se perder é
o mesmo que me trouxe aqui
sem feito sem afeto sem eu mesmo sem teto.
e agora, faço o que de mim?

terça-feira, 11 de junho de 2024

Carinho

Me abrace todo dia
Deixe escapar um beijo no meu rosto.
Às vezes, pouse sua mão sobre a minha
e a deixe lá.
Quero teu carinho.
Coloque sua mão sobre minha perna
deite sua cabeça no meu ombro.
Não precisa dizer nada.
Apenas sinta que eu e você
Trocamos carinho
Aproxime teu corpo do meu
E deixe que o amor fale mais alto.

domingo, 19 de maio de 2024

Centuries

I know your hand from all the times
They rested over mine.
I draw your shoulders
because I know their shape from all the tears
I poured on them long before here.

Your eyes seek mine but not me
they seek the one I've been before this
Before this old body and aching soul
From a time when we were whole.

We got lost in translation.
Have we said in a minute or so?
It took you too long to show up around here
Now there's no plan nor hope to see.

And yet your hands feel the same
as the ones I touched lives ago
even the shape of your shoulders feels familiar
'cause I lay on them when I was in fear.

You remind me of one every day
I'm an old valentine whom you don't recall
It feels like a dream we can't quite reach
and from which we can't flee,

It's a chasing we perform endlessly
As if we weren't meant to be
a love crossing the centuries but that can never stick
and yet we keep bumping into each other
there's always a corner
where I know I'll meet your soul again.
Until when?

sexta-feira, 17 de maio de 2024

Fico aqui

Já te vi antes, estranho mutante
que nada tem de errante
que sabe bem o que está fazendo.

Dessa vez, não posso te esquecer de novo
Não posso lutar contra você eternamente
Tampouco posso me render
Isso seria demais. Muito indulgente.

Então eu peço, que
dessa única vez
Seja você a partir. E não eu.
Eu gosto de onde estou. E tenho gostado de quem sou.
Não posso me dar ao luxo de pegar a estrada outra vez
a longa rodovia onde adormeço fácil e rápido
e tomar outro caminho confuso e trépido,
Só porque não consigo lidar com o que sinto tampouco com o que temo
Temo querer aquilo que não tenho
E nem devo querer
Mas dessa vez não quero correr.
Quero ficar.
Você que vá!

Por favor?

segunda-feira, 13 de maio de 2024

Musa

É bom ter um poeta te amando.
Você não sabe as maravilhas que ele fala de ti.
Tua vida salva um poema, que salva uma noite,
que salva um amor, que conquista a morte.

É bom ter um poeta te amando,
Mesmo que você não o ame de volta.
Você, sorrindo no canto do corredor, cabelo no ombro
E palavras brotando para cantar tua beleza.

E não dê fim a esse subalterno
Nem menosprezes sua desgraça.
Não se ama à toa nem por acaso.
Amor que permeia os sonhos noite após noite.
Até que vire poema.

Um abraço que não vingou, na mesma página do beijo roubado,
Num semblante curioso que queria apenas provar.
Se assim foi,
Se tu fez um poeta te amar,
Cuidado! Pode ser que você seja eternizado.

Hei, menino
conjugue bem esses verbos.
Só diga se o amor for de verdade.
Hei, menino
conjugue verbos mais verdadeiros
Querer não é assim tão passageiro
O futuro do pretérito, tal qual o presente do sujeito,
sendo gerúndio:
"Eu ainda te quero.
Vivo te querendo."

Cheguei Cedo e Você Atrasado

Versão em português de I’m Early and You’re Late.

Você pergunta se estou bem e eu complico um bocado
Você diz que sou rabugento e eu temo um destino encontrado
Você sabe como é e eu me vejo estampado
Você insiste que cheguei cedo, mas você que veio atrasado. 

Você vê auras e cores
Eu vejo longas estradas e dores
Eu finjo que não há novos amores
E sua beleza que não vejo nas flores. 

Você acorda sempre no raiar do dia
Mas dessa vez, você deixou passar a alegria
Pois chegou na hora mais fria
Perdemos a chance, eu diria.

Da próxima vez, espero te alcançar
Sem mais desastres para rimar
E você, siga firme até a hora chegar
Quando no cara certo você esbarrar.

  

terça-feira, 7 de maio de 2024

Colírio Para os Olhos

 Minha versão em português de "Easy On The Eyes".

Ah, linda alma e coração tão belo 
Pessoa atraente que eu quis conhecer
Um rosto tão bonito pode querer dizer,
Só por ser um colírio para os olhos, 
Tudo o que bem entender.

Eu tento não encarar, mas não é fácil 
Até tento fugir, mas não quero.
Tenho que ficar aqui, diante do seu azul
Mergulhado no meu medo e nu.

Aposto que não sou especial e nem mesmo
Um vislumbre de algo a mais.
Eu aceito meu lugar e juro
Não me deixar levar pelo seu rosto maldoso e trapaceiro outra vez.
Que só por ser um colírio para os olhos
Pode ser e fazer
Tudo o que bem entender.