terça-feira, 25 de agosto de 2015

Miudezas

Difícil a mudança.
Caixas inundadas de miudezas, gigantescas vaidades, belas memórias e desejos incompletos em formas de cartas, selos e fotos.
O apego material que sustenta o desejo de não se despedaçar diante do novo.
Hoje eu empacotei um sonho e um desejo.
Talvez um dos dois se perca nas plataformas.
Talvez cheguem ambos comigo no destino final.
Talvez eu não os veja mais. Sou distraído.
Quando eu pisar diante de ti novamente, não seremos o "nós" pelo qual eu ansiava.
Haverá uma cachoeira inteira nos separando.
Mesmo que as miudezas ainda estejam em casa significando alguma coisa que você nunca entendeu e pra mim não fará mais sentido.

Um adendo.
Uma vez eu ganhei de presente um eclipse que me fez desaparecer.
Tenho sumido desde então.
Guardei esse presente perecível dentro de uma caixa e levei comigo.
Um presente que poderia ter sido belo, mas nunca o usei. Nunca pude usá-lo. Nunca tive teu sol para eclipsá-lo.
Vou na penumbra com ele de volta pra casa.

Pois, perceba que eu nada disse de grande impacto.
Não fui de deixar um eco de choro no caminho cheio de escadas.
Somente sorri e acenei de longe, pois, para mim, não há segredo guardado.
Você sabe de tudo.

Aquelas três palavras que eu muito disse (em voz baixa), mas não disse suficiente...
Elas e as miudezas...
Me acompanharão essa noite.

terça-feira, 28 de julho de 2015

Alguém [22]

Alguém que nunca te magoou, apenas te somou.
Alguém que, simplesmente, não pode cair no esquecimento, mesmo apesar da distância.
Alguém que ficará por aqui hoje enquanto você vai pra outro lugar, uma foto na bagagem e uma lágrima parada na ponta do nariz.

Alguém que nunca mais será só um alguém.

Alguém [21]

Alguém que te acompanha no riso, no copo, no colo e no sono.
Alguém que te olha e te vê, se joga e te joga por completo.
Alguém que enrola a língua pra falar o que sente.

Alguém que você entende.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

O que vestir

Ou Prelúdio Para um Samba


Se você vem de seda
Já entendo a noite que teve
Se exibes um corpo sorrindo
Me faço de desentendido

Se corres da chuva
Me contorço de raiva
Se usas um véu e grinalda
Faço disso uma piada

Se tens a mão fria
Talvez eu faça uma rima
Mas se chegas de máscara
Eu não entendo o que se passa

E quando não entendo
Não acho nada engraçado.
Mas se chegas despida
Aí já não tenho rima.

Mas se te afastas de mim
Usando um roupão de cetim
Como aquele que usas dia não, dia sim,
Morro a cada pouco

A cada pouco despedaço
Cores e amores em liquidação
Não sou eu quem faço
Esse desejo de vestir seu coração.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Abraço apertado

Ele tinha um desses abraços
repletos, exagerados,
que de tanto não precisar
chegava e ficava

Um desses abraços apertados
que algo dizia
já que não necessitava de palavra
estendia-se no infinito

Desses que te acomoda
te busca e finge
que não é dor que sente
da vida que não veio e do que ficou pra trás

Um abraço de menino
de criança, de segredo
de confidência, de permissão
quase como um pequeno desespero

Há algo de urgente nesse abraço
um fio tênue de coragem
de levantar-se e dizer que
"não solta mais"

O abraço que é só isso
que nasceu para ser.
Pois quando desaba
quando seu corpo desagua
quando já não é mais ficção
nem fusão
já não é justo nem disposto
já é longe
já é passado
é eco
ainda é vivo
evapora e precipita-se
e eu chovo em mim mesmo
pois ainda está aqui.
Eu preso no abraço que ficou.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

No meio

Prelúdio para "O Diabo na Estrada".



Uma notícia ruim é como um câncer.
Tudo que toca, destrói.
Um pedaço de papel, sulfite, A4, e aquela confirmação em negrito, itálico, sublinhada, exaltada, gritando para todas as paredes. Não, não é câncer.
Mas é como se fosse.
Laura coloca os vários papeis em cima da cama e fica olhando pra eles durante vários minutos. Ou segundos? Talvez fossem horas... Ela escuta buzinas, alarmes de carros, sirenes de ambulâncias, gritos, risadas... Durante a tarde, o bairro é bem tranqüilo, pode-se ouvir os ambulantes vendendo suas bugigangas com naturalidade e os pedestres criando conflitos com motoristas. Mas nada sai do ordinário. Ela que se desloca da realidade com uma rapidez que se aproxima à velocidade da luz.
“Eu sou a morte!” – grita o papel em seu colo.
A última página foi a definitiva. De resto, tudo normal.
Laura que não chorava há alguns anos, pois decidiu ser mulher forte. Laura que não se angustiava por nada, tomava seus ansiolíticos com regularidade, pintava quadros, já que não dançava mais, apenas para expor a gravidade de seus sentimentos impróprios. Justamente ela! Culpada de ser quem é. Culpada pelo resto da vida. Agora, ali, olhando para aquele papel, sentia-se uma criança diante da expulsão da escola. Como contar aos pais?

O tempo, imóvel naquele quarto, se desdobrava em pensamentos para Laura. Conheceria Veneza, das histórias românticas? Veria o Coliseu, dos bravos gladiadores? Ou a pop Nova York e seus teatros belíssimos? Veria o sol amanhã? Veria o próprio rosto no espelho? O próprio rosto no espelho não a reconheceria, então, melhor não! Decisões mais sábias daqui pra frente.
Duas batidas na porta.
Ela, de sobressalto, exclama um “entra!” e continua vidrada no papel que definiria sua existência pelos próximos anos.
- Eu vim procurar meu irmão.
Barba rala, esse pobre coitado. Nunca conseguiu crescer uma barba descente. Não deve nem ter pelo na bunda. Simas, o cabeça baixa, o sorridente, porém, inacabado ser humano, esse, cuja presença ninguém se detém falando muito pra não deprimir os outros, entra no quarto, afoito, contido também, numa mistura de querer e não poder que só ele sabe fazer. Esse mesmo ser humano desprezível entra no quarto.
- Cadê o Amir?

- Você ta vendo ele aqui? – tratá-lo com rispidez faz Laura sentir-se bem.
- Não, não. – ele parece confuso, desligado. – É que eu precisava mesmo falar com ele.
- Pode falar pra mim. Eu sou a mulher dele. – Laura se levanta, impõe-se, parece uma fênix.
- Você sabe pra onde ele foi? – Simas questiona com um desespero latente. – Onde ele está agora?
- Ele saiu comprar umas coisas. – ela não fazia a menor idéia. Aliás, boa pergunta, onde estaria Amir agora? – Fale pra mim, seja lá o que for.

- Bom, você sabe que né... Ele foi me entregar, Laura!
Os olhos de Simas brilhavam com algo que pareciam lágrimas. Mas não, talvez fosse apenas o reflexo da lua cheia.
- Você mereceu! – concordou ela.
- Eu jamais mentiria pra você. Você é mulher do meu irmão! Você o tocou! Você fez sexo com ele... Você... Você se deita com ele, sente o corpo dele... Eu não mentiria pra você.
Simas estava muito desconfortável ao falar isso. E até meio violento. Mas lançava um olhar de desejo a Laura. Um olhar que ela não revidou, mas também não ignorou.
- Eu vim aqui pra pedir pra ele não fazer isso! – ele exclamou, com a voz fina de alguém desesperado.
Ok. Foda-se. Quando se está morrendo, apenas se morre. Alguém tem culpa e quando a culpa é nossa, é preferível colocá-la em outra pessoa. Melhor que o mundo acabe em sexo e morte do que em dor! No desespero de beber da água da vida, a gente acha subsídios em qualquer órgão genital.
- Você me parece cansado. Venha aqui. Eu te ofereço conforto.
Quando temos a morte ao nosso lado, a gente a oferece. Tocamos tudo com a nossa morte. Talvez, na esperança de trocá-la por vida.
Simas avançou com um desejo selvagem e agarrou o seio de Laura. A camisola que ela usava foi facilmente rasgada. Ambos sabiam que nada disso estava correto, mas eles nunca haviam seguido a regra. Então, estava tudo bem.
- Você ta com o cheiro dele.
Ela teve que empurrar o rosto dele para longe.
- Do Amir?

- Sim. – ele sorria, refestelado de prazer. – Sim, o cheiro dele.
- Isso é bom?            
- Não sei. Mas vamos continuar.
Ela teve um flash de lembrança. Amir e ela. Marido e mulher. Promessas para sempre. Talvez não estivesse certo quando ele tocou a coxa dela.
- É melhor parar. – ela pediu, mas sem muita convicção.
Ele não parou. Tocou os seios dela com as mãos cheias de desejo.
- Vá com a boca. – ela pediu, já entregue.
Eles fizeram o sexo que tinham pra fazer e depois foi só isso. Ele saiu envergonhado do quarto, não terminou de se defender. Ela não se cobriu de vergonha, como de costume, hábito idiota, já que nunca sentira vergonha depois de um sexo casual, mas gostava de manter certa pose politicamente correta, segundo ela.
- Me leve pra longe, Simas! Me tire daqui! – foi o que ela disse na hora do orgasmo.
- Não fale pro meu irmão sobre isso! – ele pediu depois do orgasmo dele, com resquícios de lágrimas no rosto.
- Jamais. – ela confirmou, sorrindo, maldosa, rindo da falta de cuidado de Simas.
- Eu o amo. – e ele falava muito sério, ela sentiu.
Um gosto amargo apareceu na língua de Laura minutos depois. Irmão versus irmão. Que indelicadeza se meter nisso.
Diante da morte, Laura adormeceu, temerosa, talvez ele tivesse plantado a semente da mentira em seu ventre e isso crescesse numa criança doente e negligenciada. Mas o medo sumiu tão rápido quanto apareceu, com a notícia daquele papel gritando mesmo em seus sonhos mais profundos. Amir a encontraria, por mais que ela fugisse.
Fugir dele seria fácil. Mas fugir da morte?
Laura acordou na casa da amiga. O quarto de hóspedes era muito bem equipado com móveis em madeira, envernizados, lindos. Ela se sentia deslocada num ambiente tão propício para ser feliz. Não casava com sua realidade.
Laura não sentia a doença ainda. Ela, a doença, não existia. Era só uma projeção ruim de uma fantasia carnal e mal resolvida. Teriam sacado errado. Sim, ela não sentia nada. A doença ainda não viera visitá-la. Talvez o ser humano nasça para viver para sempre.
- Amir veio visitá-la. – a amiga disse ao acordá-la.
A gente reconhece tão bem os começos dos começos. São tão lindos, geralmente. Mas reconhecer o começo do fim é algo perturbador. Laura percebeu que esse era o momento antes de Amir entrar no quarto e falar tudo aquilo que a ofendeu tanto, apesar de ser verdade. Ela destruiu não só o relacionamento, mas como uma família inteira. E então? Como lidar com esse peso destrutível que começa a cair?

Mas há uma doença e a morte espreita em cada esquina. Então, melhor ficar quietinha que tudo há de se resolver.
Laura começou a chorar antes de Amir entrar no quarto, pois sabia que, de vez em quando, ela, a morte, pode se tornar uma escolha.

Soneto da Tecnologia

Eu sou eu mesmo, meu eu, e nada pode dizer que não
Exceto se me subjugam face ao desconhecido.
Contudo, permaneço no vazio, ferido e são
Sendo mais que um tumulto, mais que um desiludido.

Sou eu mesmo, criando mistérios coloridos num cartão
Que entrego a vós sem expectativa, nenhum pedido
Sou, mesmo assim, grasnando, um pedido de socorro em vão.
Sou mais que um filho da mágoa, incorrigível e fodido,

Tenho, na extensão do corpo, um resquício de vida,
Uma lembrança de humanidade semeada perdida,
Como numa vala onde cabe qualquer indigente.

Falando assim, transmuto-me num ser delinquente
Que só permite a si mesmo um minuto presente

Antes de me despedir e sumir da minha vida sofrida.