Talvez
Se tivessem me apresentado a possibilidade
Se o conceito tivesse vindo depois da liberdade
Hoje
Talvez hoje eu fosse fabuloso!
Talvez eu tivesse estourado no seio dos pampas
Ou fosse menos aprumado e mais jocoso
Sendo mais fiel ao singelo desejo da estampa
Agora esticada em minha camiseta
Eu poderia dançar sem articulações
Os ossos girando nos eixos
Explodindo em vibrações de cores e amores
Poderia até ser perfeito
Se o conceito tivesse vindo depois
Eu não precisaria me dar um nome
Poderia desrotular pra cada vez mais lacrar
E me ser pra sempre o que me sentiria em cada hoje!
sexta-feira, 3 de março de 2017
sexta-feira, 9 de dezembro de 2016
Resta
O que eu sinto que sou já não é mais.
Resta esperar.
A carta, a ligação, a chegada, a pousada,
A mão, a face, a música que tem meu nome,
Meu nome não é mais meu nome
Meu corpo nem mais é meu.
Resta esperar a rematrícula.
Resta o resto do prato cheio de comida insossa.
Metade do que sou pesa numa outra balança.
Metade do que fui já não canta nem mais no mesmo tom.
Ao pertencer a mim, passei a não estar com mais ninguém.
Ao sugerir mudanças, comecei a permanecer intacto.
Como uma agulha no furacão,
Sumi feito um sonho de criança.
O eco resumido em desacato,
Todas as autoridades tremem
Diante de meu novo contentamento
Que não mais é por completo,
Mas se resume em poucos movimentos,
Ser. Levar. Aguardar.
Na sobriedade das palavras escapam-se os silêncios,
O último silêncio, porém,
Esse, não!
Esse vem a galope.
segunda-feira, 1 de agosto de 2016
Brevemente
Eu te vi brevemente dias atrás.
Vi você e desejei beber um copo de uísque. Depois outro. Depois mais um.
Vi você e desejei não ter corrompido minhas memórias.
Desejei não ter sobrevivido.
Eu vi você e lembrei de seus nomes.
Aline. Cristina. Luan. João. Eric. Mariana.
E tantos outros nomes que já não me recordo mais.
Ainda bem que eu já não tinha mais nada pra dizer.
Bom,
Eu até tinha, mas nada pronto no momento.
Porque eu me sinto vivendo num elevador.
Porque eu sinto que morri.
Sinto que não estou mais aqui.
Sinto que estou bem ao mesmo tempo dentro do elevador.
Depois de todos esses anos que eu deixei você/vocês irem embora.
Onde estão? Que fazem?
Eu vejo um breve lampejo de brevidades que me fazem indagar
Qual a hora certa pra um novo amor?
Existe tempo certo pra ser pra sempre?
Eu perdi amores como quem perde dentes. Reluta, mas perde.
Eu ganhei breves momentos de afeição carnal e breves momentos intensos de pertencimento, mas que me deixaram ao lado do mesmo sombrio cadáver.
Eu sou perfeito em todos os sentidos quando ouço as músicas que tocam no elevador.
E brevemente suavizo o áudio pra poder cantar junto.
Brevemente bebo um copo de uísque.
Tenho medo das cordas se romperem e, se isso acontecer, juro que não farei mais nada que possa magoar meus cabelos negros.
Por favor, me ligue por um breve instante.
As gestalts zombam sem chaves ou fechaduras.
Brevemente me entrego novamente.
Vi você e desejei beber um copo de uísque. Depois outro. Depois mais um.
Vi você e desejei não ter corrompido minhas memórias.
Desejei não ter sobrevivido.
Eu vi você e lembrei de seus nomes.
Aline. Cristina. Luan. João. Eric. Mariana.
E tantos outros nomes que já não me recordo mais.
Ainda bem que eu já não tinha mais nada pra dizer.
Bom,
Eu até tinha, mas nada pronto no momento.
Porque eu me sinto vivendo num elevador.
Porque eu sinto que morri.
Sinto que não estou mais aqui.
Sinto que estou bem ao mesmo tempo dentro do elevador.
Depois de todos esses anos que eu deixei você/vocês irem embora.
Onde estão? Que fazem?
Eu vejo um breve lampejo de brevidades que me fazem indagar
Qual a hora certa pra um novo amor?
Existe tempo certo pra ser pra sempre?
Eu perdi amores como quem perde dentes. Reluta, mas perde.
Eu ganhei breves momentos de afeição carnal e breves momentos intensos de pertencimento, mas que me deixaram ao lado do mesmo sombrio cadáver.
Eu sou perfeito em todos os sentidos quando ouço as músicas que tocam no elevador.
E brevemente suavizo o áudio pra poder cantar junto.
Brevemente bebo um copo de uísque.
Tenho medo das cordas se romperem e, se isso acontecer, juro que não farei mais nada que possa magoar meus cabelos negros.
Por favor, me ligue por um breve instante.
As gestalts zombam sem chaves ou fechaduras.
Brevemente me entrego novamente.
terça-feira, 3 de maio de 2016
Ana.
O carvão queima minha garganta,
que teima em arranhar as tintas dos azulejos.
Não há espelhos, não há rotas segundas.
Somente desejos.
Eles me escapam, como se de mim viessem, mas a mim não pertencessem.
Parece-me que a vida espera mais de mim.
Confesso que não há nada entre o abismo e eu.
Apenas um suspiro instigante como um edifício no meio do mundo.
Parece-me que estou prestes a cometer um desmazelo.
Momentos que pedem mais trabalho, mais tempo do que posso oferecer.
E o amor consome e some.
E fecho-me. De repente.
Repentinamente, o azul se abre.
O céu com arestas celestes.
Mostrando que há um fim. Um que não devo tocar.
Quem é você que desmonta meus finalmentes? Aqueles que eu treinei pra serem só meus?
E esse recomeço no meio do meio?
E nesse vão das coisas que a gente disse...
Que a gente cantou...
Está à nossa espera?
E de sem querer em sem querer começa a fazer parte. Em qual rua?
Encostando eu na tua, você na minha. Nós na nossa.
Ana vibraria por viver essa meia aventura desconexa e injusta.
É isso aí.
que teima em arranhar as tintas dos azulejos.
Não há espelhos, não há rotas segundas.
Somente desejos.
Eles me escapam, como se de mim viessem, mas a mim não pertencessem.
Parece-me que a vida espera mais de mim.
Confesso que não há nada entre o abismo e eu.
Apenas um suspiro instigante como um edifício no meio do mundo.
Parece-me que estou prestes a cometer um desmazelo.
Momentos que pedem mais trabalho, mais tempo do que posso oferecer.
E o amor consome e some.
E fecho-me. De repente.
Repentinamente, o azul se abre.
O céu com arestas celestes.
Mostrando que há um fim. Um que não devo tocar.
Quem é você que desmonta meus finalmentes? Aqueles que eu treinei pra serem só meus?
E esse recomeço no meio do meio?
E nesse vão das coisas que a gente disse...
Que a gente cantou...
Está à nossa espera?
E de sem querer em sem querer começa a fazer parte. Em qual rua?
Encostando eu na tua, você na minha. Nós na nossa.
Ana vibraria por viver essa meia aventura desconexa e injusta.
É isso aí.
domingo, 21 de fevereiro de 2016
Quando fui chuva
Estive eu, por muito tempo, acostumado a chorar pelas
ausências, pelas faltas, pela minha própria incompletude, pela falta de amor
(principalmente o próprio), pela indecisão e pela confusão de ser e existir no
universo artificial que me foi dado sem minha solicitação. Estive por muito
tempo olhando pra trás, pois olhar pra frente e não ver nada era muito
dolorido. E olhar pra trás, o eco daquilo que fomos, que costumávamos ser,
aquele eco me deixava deprimido. Era a intangibilidade de um sonho de criança
reverberando nos meus ossos de adulto. Preferia trancar tudo no meu quarto,
repousar minha cabeça no travesseiro e me deixar ir... Pra não precisar lidar
com nada que escapasse das minhas mãos.
Ontem eu chorei. Ouvindo a letra que dizia assim: “E mesmo que
em ti me perca nunca mais serei aquela que se fez seca vendo a vida passar pela
janela”. E eu me senti repleto de chuva, cheio de vazios impreenchíveis, mas
aos quais sou grato.
Eu, acostumado a chorar pelas faltas, passei a chorar pelos
tantos momentos queridos dos últimos dias. Feliz por dividir a moradia física
com a minha melhor amiga e feliz pela casa que é meu coração estar ocupado no
momento com um amor novinho em folha e que me faz tão bem, que me abraça tão
forte, que olha fundo nos meus olhos e me diz que eu não preciso mais chorar,
pois agora temos um ao outro. Um amor novinho em folha que me acalenta e se faz
presente no meu mundinho particular. Um amor que me envolve e que me faz querer
trancar a tristeza, já moribunda, do lado de fora de casa.
Os tantos cafés que faço por dia. E a companhia para
bebê-lo. O cheiro subindo pelo apartamento e as discussões sobre a vida e sobre
trabalho. Um pequeno universo de felicidade fragmentada numa distorção da
realidade. Não pensei que chegaria aqui.
Pelos tantos domingos com os amigos, num ninho de carinho e
respeito, dormindo e rindo. E acontecendo de forma simples e verdadeira. Que surpresa
essa minha vida!
Não me entenda mal, não resolvi minhas incompletudes. Há
muito ainda que quero fazer e ter, que sonho e almejo. Muita coisa mesmo. E eu
já entendi também que eu não vou parar de chorar tão cedo. Eu preciso encher
meu baldinho, preciso compor, preciso escrever, preciso que a existência me
transpasse com ferocidade para me sentir mais vivo e poder fazer o que amo. Mas
não preciso me maltratar nesse processo sensível. Dá pra ser triste e feliz na
mesma leva de sentimentos. Porém, talvez, seja a hora de parar de chorar pelas
ausências.
O que me aconteceu ontem foi uma abrupta compreensão sobre a
minha própria maturidade. Um reconhecimento de que não me encontro mais naquele
estado vegetativo de inquietude sentimental. Há mais estabilidade aqui onde
estou. Como se eu tivesse parado o fluxo da natureza e emergido do fundo do mar
para tomar ar e poder voltar a mergulhar. Nesse pequeno espaço de tempo foi que
eu compreendi tudo isso.
Eu passei por um luto familiar e pela perda de muita coisa
que eu amava recentemente. Mas não sou produto de uma lição punitiva da vida,
não PRECISEI passar por isso pra sentir o que sinto hoje. As coisas se
transformaram naturalmente em mim. Eu posso sentir isso. E renovei meu apreço
pela família. Uma nova onda de empatia que se instalou em mim e me disse que
ficará tudo bem, que eu posso me doar mais sem esperar tanto em troca.
E talvez eu esteja feliz. E não com medo de tudo acabar. Mas
feliz. Grato. Genuinamente. E me estranhei nessa nova roupa, não estava
habituado. E agora ela ta me caindo tão bem.
Então, parei o carro, liguei pra minha amiga e, chorando,
cantei: “Nada do que fui me veste agora, sou toda gota que escorre livre pelo
rosto...”.
quinta-feira, 17 de dezembro de 2015
Fechamento
Pois será
assim, então.
Com um
último sonho, um tão real que posso sentir até agora o aroma adocicado dos teus
cabelos, com esse último sonho, eu me despeço.
Chega. Chega
de esgueirar-se sorrateiro assim pra dentro da minha memória depois de tanto
tempo.
E todas as
coisas não ditas, todas as coisas que ficaram em suspensão para que eu pudesse
falar quando retornasse no verão seguinte... Todas essas coisas, simplesmente
não serão ouvidas mais por você.
Atingimos um
ponto de injustiça tão crucial aqui e é justamente nessa bifurcação confusa no
meio do meu caminho que escolho me retirar do jogo.
Não faz mais
falta a sua voz se desculpando por qualquer trivialidade. Não ressoa mais sua
respiração próxima ao meu peito quando nos abraçávamos e você parecia querer
dizer o mesmo que eu. E eu podia sentir sua ansiedade trepidando dentro do seu
peito. Como um rufar de tambores temendo que eu me abrisse ali mesmo, na hora
mais imprópria, apenas pra dizer que, se na estrada acontecemos, dali pra
frente seria somente horizonte compartilhado e que, apesar das curvas,
poderíamos percorrer as distâncias lado a lado, sem nos perdemos ou nos
esquecermos no acostamento. Pois fazemos sentido quando configurados dessa
forma. Meu rock’n’roll e sua ciranda. Minha poesia e seu corpo... Minha poesia
que te assusta e te afasta. Sei que você sabe quando lhe dirijo a licença
poética. Nunca foi esse o caso.
Mas não
conseguiria reviver essa infantilidade por muito mais tempo. E, atendendo a
todos os clichês, a distância ajuda. Concluo agora. E, por isso, me revolto
hoje com sua relutância em aparecer com meus velhos projetos, me lembrando de
que existe um ciclo aqui que não está fechado. Por isso que você não vai embora?
Por isso que fica aí encubado esperando o momento certo de me entorpecer? Por
isso tem que aparecer dessa forma tão covarde para que eu, finalmente, possa
falar e você ouvir? Pois, antes não era possível, o que teria te tornado agora
tão propício ao diálogo?
Porém, o navio
partiu. Sem bússola mesmo, que é pra não sofrer por antecedência. Ancorar de
novo na mesma praia não é uma possibilidade tão tentadora assim. Não quero
matar a saudade que pesa como um fardo de concreto. Ela vai ter que se resolver
sozinha.
Então,
somente, pare. Pare de aparecer assim, no meio da tarde mais comum e quente que
houve até agora, dizendo tudo.
Estou vazio
de maneiras pra concluir essa história. O fim, o ponto final, o ritual que me
tirará desse carrossel... Não o encontro. Arrisco-me, agora, ao colocar essas
palavras no papel.
Espere um
pouco...
Reli o que
já escrevi até aqui. Parece que conjugo ainda no presente. “Pois fazemos sentido quando configurados dessa forma.” Engano meu.
Fazíamos sentido. Preciso me
acostumar a te deixar no passado que é seu lugar.
Por isso,
encerraremos assim. O não dito permanecerá constante. O pouco que foi dito,
deixemos pra lá, como se nem nos lembrássemos. A coloratura dos dias, nos
ápices de riso e de dor, e as particularidades tão sutis e singelas que
construímos juntos serão fotos de viagens, arquivadas e escondidas num lugar do
qual não poderão sair e incomodar. As músicas que são nossas e que você não
reconheceria mesmo, bom, elas podem ficar sem ser ouvidas por alguns meses.
Por um
momento, preciso reconhecer que fizestes muito por mim com toda a sinceridade.
Peço mais isso, então, confiando que haverá coerência nessa sua conjuntura.
Não apareça
mais em meu inconsciente. Não me tire nem me prive do meu presente. Quero
viver. Quero morrer de viver bem. Quero muito e não te quero mais.
...
O silêncio
desconfortável novamente. Você nunca diz nada.
...
E, novamente,
eu escrevo apenas para mim mesmo.
quarta-feira, 21 de outubro de 2015
Vertigem
Para meu avô muito amado Ivo Alexandre Bosi.
“Vertigem”. Foi o que ela me disse ao se referir sobre a própria noite mal dormida, seguida por uma manhã suspensa pela antecipação da notícia.
“Vertigem”. Foi o que ela me disse ao se referir sobre a própria noite mal dormida, seguida por uma manhã suspensa pela antecipação da notícia.
“Vertigem”.
Ponderei também junto dela, referindo-me ao passar dos minutos que não eram nada
além de pura crueldade devido a sua baixa velocidade.
Sentimos
juntos a vertigem daquele acontecimento, de mãos dadas, em posição de oração e
de partilha. E a realidade caiu com um baque surdo no centro da sala, deixando
órfãos nossos corações. Eventualmente, ela me diria que tudo havia acabado.
Pergunto-me desde então, passadas mais de 48 horas: haverá tudo acabado mesmo?
O dia mais
longo do ano, já regido pelo horário de verão, não perdoou com sua alta
temperatura. O recurso ineficaz das lágrimas não suavizava a quentura que se
estendia do rosto ao tronco e dali para os membros inferiores, tampouco
garantiam conforto diante da saudação vil e irônica da morte.
Não vi seu
estado enquanto jazia sereno e, por fim, sem sofrimento no centro daquele
salão. Sabia que já não o reconheceria mais. Aquele não era o meu “ele”.
A ironia afiada
que percorria a atmosfera, desdenhando de nossas crenças tanto no incorpóreo
quanto na ciência, era o suficiente para me ensurdecer diante das palavras
vazias e apáticas proferidas pelos visitantes. Nada fazia sentido diante da
queda de um grande herói.
Soube na
manhã seguinte, apenas, que não havia sido uma queda. Não se escolhe cair.
Por isso,
quando me aproximei para vê-lo, reconheci rapidamente, uma última vez (apesar
da vertigem maluca que ameaçava me levar para o chão), a vida generosa e amável
que havia habitado aquele corpo até horas atrás e entendi. Abaixei-me e proferi
em seu ouvido um pedido de perdão, um agradecimento e um incentivo.
“Eu poderia
ter feito mais. Nunca esqueceremos tudo o que nos ensinou. Amamos você. Vá para
a luz... Pode ir. Não ficaremos magoados”.
Ele abraçou a
vida enquanto pôde e abraçou a partida também, dada o tamanho de sua fé, para
encontrar-se com aqueles de quem tanto sentia saudade. Nós entenderemos isso um
dia, penso eu.
Segurei firme
a mão dela para sentirmos a vertigem juntos, não mais sozinhos como na noite
anterior, mas como na hora da verdade naquela sala. Ficaremos por um tempo de
mãos dadas, pois o sofrimento é de quem fica. Ela sem ele. Nós sem ele.
Mais de 48 horas
depois e tenho certeza que nada acabou. Os olhos dele, azuis límpidos como o
mar mais lindo que já vi, reproduzidos na bisneta de quase três anos; seu
carinho, cuidado, amor e dedicação pela família reproduzidos nos filhos vivos;
seu coração de ouro e sua coragem de enfrentar a vida e dar a cara por aqueles
que ama reproduzidos nos netos; e isso é só o começo...
Talvez isso
seja viver para sempre.
A vida que se
finda só não é maior do que o sentimento que permanece.
Seres muito amados são imortais.
Seres muito amados são imortais.
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