Ele tinha um desses abraços
repletos, exagerados,
que de tanto não precisar
chegava e ficava
Um desses abraços apertados
que algo dizia
já que não necessitava de palavra
estendia-se no infinito
Desses que te acomoda
te busca e finge
que não é dor que sente
da vida que não veio e do que ficou pra trás
Um abraço de menino
de criança, de segredo
de confidência, de permissão
quase como um pequeno desespero
Há algo de urgente nesse abraço
um fio tênue de coragem
de levantar-se e dizer que
"não solta mais"
O abraço que é só isso
que nasceu para ser.
Pois quando desaba
quando seu corpo desagua
quando já não é mais ficção
nem fusão
já não é justo nem disposto
já é longe
já é passado
é eco
ainda é vivo
evapora e precipita-se
e eu chovo em mim mesmo
pois ainda está aqui.
Eu preso no abraço que ficou.
segunda-feira, 8 de junho de 2015
terça-feira, 27 de janeiro de 2015
No meio
Prelúdio para "O Diabo na Estrada".
Uma notícia ruim é como um câncer.
Tudo que toca, destrói.
Um pedaço de papel, sulfite, A4, e aquela confirmação em
negrito, itálico, sublinhada, exaltada, gritando para todas as paredes. Não,
não é câncer.
Mas é como se fosse.
Laura coloca os vários papeis em cima da cama e fica olhando
pra eles durante vários minutos. Ou segundos? Talvez fossem horas... Ela escuta
buzinas, alarmes de carros, sirenes de ambulâncias, gritos, risadas... Durante
a tarde, o bairro é bem tranqüilo, pode-se ouvir os ambulantes vendendo suas
bugigangas com naturalidade e os pedestres criando conflitos com motoristas.
Mas nada sai do ordinário. Ela que se desloca da realidade com uma rapidez que
se aproxima à velocidade da luz.
“Eu sou a morte!” – grita o papel em seu colo.
A última página foi a definitiva. De resto, tudo normal.
Laura que não chorava há alguns anos, pois decidiu ser
mulher forte. Laura que não se angustiava por nada, tomava seus ansiolíticos
com regularidade, pintava quadros, já que não dançava mais, apenas para expor a
gravidade de seus sentimentos impróprios. Justamente ela! Culpada de ser quem
é. Culpada pelo resto da vida. Agora, ali, olhando para aquele papel, sentia-se
uma criança diante da expulsão da escola. Como contar aos pais?
O tempo, imóvel naquele quarto, se desdobrava em pensamentos
para Laura. Conheceria Veneza, das histórias românticas? Veria o Coliseu, dos
bravos gladiadores? Ou a pop Nova York e seus teatros belíssimos? Veria o sol
amanhã? Veria o próprio rosto no espelho? O próprio rosto no espelho não a
reconheceria, então, melhor não! Decisões mais sábias daqui pra frente.
Duas batidas na porta.
Ela, de sobressalto, exclama um “entra!” e continua vidrada
no papel que definiria sua existência pelos próximos anos.
- Eu vim procurar meu irmão.
Barba rala, esse pobre coitado. Nunca conseguiu crescer uma
barba descente. Não deve nem ter pelo na bunda. Simas, o cabeça baixa, o
sorridente, porém, inacabado ser humano, esse, cuja presença ninguém se detém
falando muito pra não deprimir os outros, entra no quarto, afoito, contido
também, numa mistura de querer e não poder que só ele sabe fazer. Esse mesmo
ser humano desprezível entra no quarto.
- Cadê o Amir?
- Você ta vendo ele aqui? – tratá-lo com rispidez faz Laura
sentir-se bem.
- Não, não. – ele parece confuso, desligado. – É que eu
precisava mesmo falar com ele.
- Pode falar pra mim. Eu sou a mulher dele. – Laura se
levanta, impõe-se, parece uma fênix.
- Você sabe pra onde ele foi? – Simas questiona com um
desespero latente. – Onde ele está agora?
- Ele saiu comprar umas coisas. – ela não fazia a menor idéia.
Aliás, boa pergunta, onde estaria Amir agora? – Fale pra mim, seja lá o que
for.
- Bom, você sabe que né... Ele foi me entregar, Laura!
Os olhos de Simas brilhavam com algo que pareciam lágrimas.
Mas não, talvez fosse apenas o reflexo da lua cheia.
- Você mereceu! – concordou ela.
- Eu jamais mentiria pra você.
Você é mulher do meu irmão! Você o tocou! Você fez sexo com ele... Você... Você
se deita com ele, sente o corpo dele... Eu não mentiria pra você.
Simas estava muito desconfortável
ao falar isso. E até meio violento. Mas lançava um olhar de desejo a Laura. Um
olhar que ela não revidou, mas também não ignorou.
- Eu vim aqui pra pedir pra ele
não fazer isso! – ele exclamou, com a voz fina de alguém desesperado.
Ok. Foda-se. Quando se está
morrendo, apenas se morre. Alguém tem culpa e quando a culpa é nossa, é
preferível colocá-la em outra pessoa. Melhor que o mundo acabe em sexo e morte
do que em dor! No desespero de beber da água da vida, a gente acha subsídios em
qualquer órgão genital.
- Você me parece cansado. Venha
aqui. Eu te ofereço conforto.
Quando temos a morte ao nosso
lado, a gente a oferece. Tocamos tudo com a nossa morte. Talvez, na esperança
de trocá-la por vida.
Simas avançou com um desejo
selvagem e agarrou o seio de Laura. A camisola que ela usava foi facilmente
rasgada. Ambos sabiam que nada disso estava correto, mas eles nunca haviam
seguido a regra. Então, estava tudo bem.
- Você ta com o cheiro dele.
Ela teve que empurrar o rosto dele
para longe.
- Do Amir?
- Sim. – ele sorria, refestelado de prazer. – Sim, o cheiro
dele.
- Isso é bom?
- Não sei. Mas vamos continuar.
Ela teve um flash de lembrança. Amir e ela. Marido e mulher.
Promessas para sempre. Talvez não estivesse certo quando ele tocou a coxa dela.
- É melhor parar. – ela pediu, mas sem muita convicção.
Ele não parou. Tocou os seios dela com as mãos cheias de
desejo.
- Vá com a boca. – ela pediu, já entregue.
Eles fizeram o sexo que tinham pra fazer e depois foi só
isso. Ele saiu envergonhado do quarto, não terminou de se defender. Ela não se
cobriu de vergonha, como de costume, hábito idiota, já que nunca sentira
vergonha depois de um sexo casual, mas gostava de manter certa pose
politicamente correta, segundo ela.
- Me leve pra longe, Simas! Me tire daqui! – foi o que ela disse
na hora do orgasmo.
- Não fale pro meu irmão sobre isso! – ele pediu depois do
orgasmo dele, com resquícios de lágrimas no rosto.
- Jamais. – ela confirmou, sorrindo, maldosa, rindo da falta
de cuidado de Simas.
- Eu o amo. – e ele falava muito sério, ela sentiu.
Um gosto amargo apareceu na língua de Laura minutos depois.
Irmão versus irmão. Que indelicadeza se meter nisso.
Diante da morte, Laura adormeceu, temerosa, talvez ele
tivesse plantado a semente da mentira em seu ventre e isso crescesse numa
criança doente e negligenciada. Mas o medo sumiu tão rápido quanto apareceu,
com a notícia daquele papel gritando mesmo em seus sonhos mais profundos. Amir
a encontraria, por mais que ela fugisse.
Fugir dele seria fácil. Mas fugir da morte?
Laura acordou na casa da amiga. O quarto de hóspedes era
muito bem equipado com móveis em madeira, envernizados, lindos. Ela se sentia
deslocada num ambiente tão propício para ser feliz. Não casava com sua
realidade.
Laura não sentia a doença ainda. Ela, a doença, não existia.
Era só uma projeção ruim de uma fantasia carnal e mal resolvida. Teriam sacado
errado. Sim, ela não sentia nada. A doença ainda não viera visitá-la. Talvez o
ser humano nasça para viver para sempre.
- Amir veio visitá-la. – a amiga disse ao acordá-la.
A gente reconhece tão bem os começos dos começos. São tão
lindos, geralmente. Mas reconhecer o começo do fim é algo perturbador. Laura percebeu
que esse era o momento antes de Amir entrar no quarto e falar tudo aquilo que a
ofendeu tanto, apesar de ser verdade. Ela destruiu não só o relacionamento, mas
como uma família inteira. E então? Como lidar com esse peso destrutível que
começa a cair?
Mas há uma doença e a morte espreita em cada esquina. Então,
melhor ficar quietinha que tudo há de se resolver.
Laura começou a chorar antes de Amir entrar no quarto, pois
sabia que, de vez em quando, ela, a morte, pode se tornar uma escolha.
Soneto da Tecnologia
Eu sou eu mesmo, meu eu, e nada pode dizer que não
Exceto se me subjugam face ao desconhecido.
Contudo, permaneço no vazio, ferido e são
Sendo mais que um tumulto, mais que um desiludido.
Sou eu mesmo, criando mistérios coloridos num cartão
Que entrego a vós sem expectativa, nenhum pedido
Sou, mesmo assim, grasnando, um pedido de socorro em vão.
Sou mais que um filho da mágoa, incorrigível e fodido,
Tenho, na extensão do corpo, um resquício de vida,
Uma lembrança de humanidade semeada perdida,
Como numa vala onde cabe qualquer indigente.
Falando assim, transmuto-me num ser delinquente
Que só permite a si mesmo um minuto presente
Antes de me despedir e sumir da minha vida sofrida.
terça-feira, 23 de setembro de 2014
Away
- Você está bem?
Ele me perguntou e eu senti uma
raiva tremenda crescer dentro de mim. Senti-me num confronto, no meio duma
arena, de armadura e espada na mão, enquanto milhares gritavam o meu ou o nome
dele. Morro eu, ou morre ele.
- Claro que estou.
Escudo em pé. Foi o que fiz diante
da ameaça da espada do inimigo. Quem ele pensa que é pra me perguntar tamanha
hipocrisia? Se eu estou bem? CLARO QUE ESTOU BEM.
- Mesmo mesmo?
A voz dele era carinhosa enquanto
se sentava no sofá do escritório. Depois de cinco dias sem nos vermos, parecia
uma eternidade pra mim que se desdobrava em aclamações de vitória e uma saudade
moribunda.
- Mesmo mesmo.
Abaixei o escudo. Como se eu
quisesse que ele visse meus olhos marejados de lágrimas por trás da armadura.
Por que ele não vem e me abraça e diz que cuidará de mim?
- Eu ontem fui ao bar com a
Angélica.
Não perguntei nada. Não quero
saber de sua vida. Não quero saber de sua vivência, de seus amigos, de seu amor
existente e ausente. Não quero saber o que te fez feliz. Não quero saber o que
te faz feliz ou o que te adoece. Quero que você desapareça!
- E como foi?
Foi divertido, é claro. Foi
engraçado, ele bebeu e riu e foi pra casa com o idiota da moto. Eu estava
dormindo tranquilamente nos meus dois colchões de solteiro, um sobre o outro,
embaixo da janela do 15º andar. Fazia um frio do caralho. Sabendo que sonharia
com ele. Meu inconsciente anda me traindo de uma forma ridícula...
- Foi engraçado. A gente riu
bastante. Depois fui pra casa.
Ele toma cuidado pra não me
dizer. Odeio quando ele toma cuidado. Odeio quando ele se detém, pensando que
irá me machucar. Por acaso sou feito de açúcar?
- Eu nem fiz nada ontem.
Foi o que eu disse. Porque não quero
compartilhar minha vida. Só que eu fiz muita coisa ontem. Bebi meu vinho, comi
meu queijo, assisti dois filmes de diretores renomados que eu precisava
assistir (não gostei de nenhum). Joguei algum jogo de gráficos ruins e venci.
Fumei os últimos cigarros da carteira enquanto olhava o céu e me perguntava. E
te odiei muito.
- O que você vai fazer hoje?
Eu vou me afogar na garrafa de
uísque e não quero que ninguém me veja. Quero estar bem longe de você, dos seus
planos, das suas felicidades, do seu sorriso, do seu cabelo, do seu cheiro. Bem
longe do seu futuro. Bem longe da sua amizade. Eu não quero ser amigo de
ninguém. Não preciso da sua amizade. Não quero nada de você. Nada.
- Preciso dormir cedo. Amanhã
tenho um trabalho na faculdade.
Amanhã acordo às três da tarde.
Depois de curtir minha vida solitária no meu apartamento. Moro sozinho, me
proporciono alguns luxos.
- Que pena. Quem sabe, final de
semana que vem...
Sua falta de tato, sua
insensibilidade me matam! Olha pra mim! Olha bem pra mim! Olha bem pra minha
cara, para os meus gestos! Minhas sobrancelhas oblíquas, minha boca
contrariada! Não faz bem nada disso! Eu te dei uma passagem só de ida para
outras terras! Embarque no trem e vá! Suma! Não quero mais fingir. Essa máscara
fácil já me cansou! Deixa-me no escritório, vá fazer sua função e nunca mais
entre aqui! Aliás, nunca mais apareça na minha vida! É só isso que eu quero! Já
que você não pode me dar o que eu gostaria, suma! Não quero ser amigo! Quero
ser lembrança boa! Quero ficar no passado! Não quero presente...
- Podemos combinar semana que
vem.
- Vou ali pegar um copo de café.
Já venho.
Ele foi e voltou. E ficamos horas
conversando e rindo e não fizemos nosso trabalho. É tão bom estarmos juntos. É
o sonho materializado com uma dose de ironia que não me deixa seguir adiante.
Talvez, se eu falasse... Mas, não! Ele tem alguém. Alguém que o compreende
melhor do que eu. Alguém que fornece melhores práticas sexuais do que eu.
Alguém que lhe apetece melhor a visão do que eu.
- Eu te amo.
- O quê?
Ele me olhou assustado, quase
apagando a luz do escritório para irmos embora.
- Eu amo o jeito com que você
fala das coisas.
Santa tangente.
Deixa pra lá. O caminho da dor só
vai até algum ponto. Minha armadura cederá em algum momento, a espada dele irá
me perfurar ainda mais o coração. Alguém vai morrer.
No amor não correspondido, alguém
sempre morre. Serei eu?
Distância. Atenda-me. Por favor. Suma.
Pra que eu possa viver.
Pra que eu possa viver.
quarta-feira, 23 de julho de 2014
Alguém [20]
Alguém que vem no acorde menor do
piano.
Alguém que vem no perfume invisível da
madrugada.
Alguém que rasga a seda e compila teus
sonhos em breves fantasias que se perdem na realidade dos fatos.
Alguém que já se foi, só vive na
memória.
Alguém [19]
Alguém que você uma vez cuidou.
Alguém que você uma vez beijou e se
apaixonou.
Alguém que você não quis prender,
simplesmente disse “vá” pra provar o que sentia.
Alguém que talvez tenha sido de
verdade.
Alguém [18]
Alguém cuja sensação dura mais que uma
fermata.
Alguém que é semicolcheia na semana e
vem vestido de clave de sol.
Alguém que desencadeia notas doloridas
e afastadas umas das outras, que executa intervalos exaustivos e você não sabe
o porquê de não reviver o refrão mais uma vez.
Alguém que é pausa. É semibreve.
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