quarta-feira, 23 de julho de 2014

Alguém [20]

Alguém que vem no acorde menor do piano.
Alguém que vem no perfume invisível da madrugada.
Alguém que rasga a seda e compila teus sonhos em breves fantasias que se perdem na realidade dos fatos.

Alguém que já se foi, só vive na memória.

Alguém [19]

Alguém que você uma vez cuidou.
Alguém que você uma vez beijou e se apaixonou.
Alguém que você não quis prender, simplesmente disse “vá” pra provar o que sentia.

Alguém que talvez tenha sido de verdade.

Alguém [18]

Alguém cuja sensação dura mais que uma fermata.
Alguém que é semicolcheia na semana e vem vestido de clave de sol.
Alguém que desencadeia notas doloridas e afastadas umas das outras, que executa intervalos exaustivos e você não sabe o porquê de não reviver o refrão mais uma vez.

Alguém que é pausa. É semibreve.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Olhos fechados

Marcelo, de olhos fechados, viu suas sacolas de compras voarem por cima do asfalto gelado e caírem com um baque surdo na grama ao lado da rua. Esqueceu, por um instante, que havia um romance inteiro atrás de seus olhos fechados.
De olhos fechados, então, viu Ivone correr ao seu encontro, gritando aflita enquanto clamava por socorro. Outros a seguiram. A placa nunca fora anotada.
Tocaram suas costas, mas não moveram seu corpo. Um filete de sangue escorria do canto esquerdo de sua boca enquanto suas mãos e testa abriam-se em poças negras. No mesmo instante, um garoa fina anunciou o início de uma vida tempestuosa.
Sentiu-se esquecido, apesar de toda atenção.
Viu a nuca de Sofia.
Os cabelos castanhos descendo pouco abaixo do ombro, a boca magneticamente presa ao outro que não era ele. Dois pares de olhos fechados que nunca se desgrudariam, por mais que ele estivesse estendido ali no chão, o rosto trincando de frio no asfalto gelado.
Muita dor.
De olhos fechados, viu que o reflexo de luzes vermelhas giravam e não produziam som. Nada produzia som. O mundo em silêncio o fazia lembrar que antes havia uma canção que falava sobre uma noite inesquecível que tivera com Sofia. A única que tiveram e que se perdera no tempo, no medo, na inconstância. Na brincadeira.
- Você consegue me ouvir?
Alguém perguntou e ele lançou um olhar perdido, ainda de olhos fechados.
Na sacola verde em cima da grama molhada havia um presente para Sofia. Um livro. O preferido dela. Ela comemoraria o aniversário no dia seguinte. Ele precisava entregar o presente e dizer que aquela distância que ele criara de nada serviu. Ainda pensava compulsivamente nela, o que o levava a exaustão. Ele tinha um muro para derrubar e precisava estar em pé no dia seguinte.
Sua boca se mexeu, contudo não teve muita certeza se conseguiu pronunciar seu nome. Marcelo. O rapaz de olhos fechados. Que vivia no escuro, vendo somente aquilo que gostaria de ver.
Passou por um bisturi. Outros aparelhos estranhos. Viu máscaras, roupas azuis, uma luz bem forte cegando seus olhos fechados.
Viu uma luz bem forte no fim do túnel.
Viu-se interrompendo o caminho de Sofia. Ela estampava um semblante amargo. Ela ergueu o rosto, em pé no penúltimo degrau e ele chorou. As lágrimas se atropelavam para sair através de seus olhos fechados.
- Isso tudo é pior do que não estar com você. - ele disse.
Ela não entendeu na hora.
Mas se abraçaram.
Marcelo passou a mão em seus cabelos castanhos, aproximou-se cautelosamente e a beijou na boca. Meses depois, era o beijo que ele esperava para poder abrir os olhos em paz. Mas o fez de olhos fechados.
Ninguém recuperou a sacola com o livro preferido de Sofia. A bochecha de Marcelo estava em carne viva e parecia ser a parte de seu corpo que mais doía. Passou por um bisturi, outros aparelhos estranhos que provocavam ondas vermelhas/verdes numa tela, máscaras, roupas azuis, termos incompreensíveis, uma luz forte cegando seus olhos...
Sofia estava do lado de fora esperando, junto com outras pessoas bem mais importantes que ela, para saber notícias daquele que lhe não dirigia a palavra há mais de um mês. Ela não se lembrava da última palavra que ele lhe dissera. Parecia tanto como um "tchau".
No topo da escada, Marcelo e Sofia riram de todas as voltas que o mundo dá. Lembraram-se do esquecimento, da cumplicidade, riram juntos e se beijaram outras vezes. Marcelo explicou categoricamente os motivos para amá-la e ela sentiu-se especial pela primeira vez na vida. Era isso que esperava.
- Ele tem algo para me dizer. - ela comentou do lado de fora, com as outras pessoas mais importantes do que ela.
Ficaria tudo para uma outra oportunidade.
Marcelo achou que estava tudo perfeito, mão entrelaçadas com seu amor caminhando por um corredor estreito e mal iluminado, indo trabalhar. O sorriso dela era tímido, mas era completo.
Quando sentiu a plenitude, abriu os olhos. O que não viu depois foi a confirmação de que deveria ter falado antes tudo o que sonhara na mesa de cirurgia.
Marcelo ecoou por alguns segundos. Um eco triste e que se perdeu na infinidade da vida. Sofia recebeu o livro preferido de presente do seu namorado e nem soube daquele que estava esquecido na grama molhada. Ela engoliu em seco, pois sabia que havia algo que Marcelo não havia lhe dito. Então, com um peso gigantesco na alma, fechou seus olhos e passou a viver assim...

sexta-feira, 18 de abril de 2014

O ponto de equilíbrio

Já temos as mesmas risadas
os mesmos bordões
reclamações semelhantes

Mas não consigo entender o porquê
de não querer
juntar

seu rosto com o meu
meu ombro e sua cabeça
seu abraço ao meu
meu riso e o seu silêncio
sua revolta e a minha paciência
minha explosão e a sua cumplicidade
sua ciranda e meu rock'n'roll
meus super-heróis e sua natureza
minha doença e sua cura
sua âncora e minhas asas
meus sonhos e sua realidade
a sua e a minha necessidade de espaço
minha palavra engolida e sua palavra no olhar


o ponto de equilíbrio
algo a nos acrescentar
arriscar pra poder ter
além do que já temos
eu tenho uma noite fria que se tornou quente
você tem o quê?

quinta-feira, 10 de abril de 2014

O porquê de eu ter vindo pra esse mundo

Eu não vim pra esse mundo pra querer tão pouco.
Eu não vim pra esse mundo pra não fazer o que eu quero.
Eu vim pra me entregar por inteiro,
Mergulhar até os pulmões doerem,
Me doar por completo, do primeiro fio de cabelo até o dedinho do pé,
E me doer todo por qualquer sentimento que não cabe em mim.

Eu não vim pra esse mundo pra ouvir gente me dizendo o que fazer

Me dizendo o que vestir
Ou como tenho que ser.
Principalmente, não vim pra esse mundo pra perder tempo com esse tipo de coisa.
Eu vim pra beber, pra dançar, pra curtir,
Pra beijar e ser beijado,
Pra tocar e ser tocado,
Pra amar e ser amado.

Eu não vim pra esse mundo para entendê-lo.
Nem para tentar explicá-lo.
Prefiro trocar com você as experiências que formam esse monstro que você vê quando olha pra mim.
Ou esse príncipe que te diz: "Eu vou com você".
Eu vim pra morder a mão do universo e vê-lo sangrar diante dos meus olhos.
Pra chorar. Pra resmungar.
Pra deitar sobre você. Sob você. Pra me fundir com a flora.
Vim pra explodir.

Eu não vim pra esse mundo pra ser pequeno, passar despercebido.
Eu vim pra marcar. Pra ferir a história sangrenta e cheia de injustiças.
Eu vim pra deixar algo que provoque uma mudança e assim me esticar até o fim dos tempos.
Eu vim pra cantar. Eu vim pra fazer da arte meu instrumento de comunicação, já que as palavras não servem mais.
Eu vim pra lutar.
Eu vim pra arrebentar.

Portanto, peço que não me diga o que fazer.
Não se baseie em livros de contos de fada pra justificar seu preconceito, sua raiva, sua negação de si mesmo.
Eu prometo que tentarei ser o melhor que posso ser.
O melhor ser humano que posso ser.
E te espero pra um jantar, com vinho, pizza, gargalhada, troca de números, linguagem corporal afiada.
Eu espero e torço pra que você seja como você é. É uma luta diária.
É uma luta minha também.
Mas, vem cá,
não é bem melhor assim?

domingo, 6 de abril de 2014

A face de deus

4:00AM.

Foi quando ele viu a face de deus pela primeira vez na vida. Tudo resplandeceu debaixo da lua, a fumaça subindo em espirais delirantes na pouca área que ocupavam os corpos ansiosos por prazer, compromisso e satisfação carnal. A divindade não lhe dirigiu atenção, nem mesmo quando uma cascata de cereja jorrou da boca do rapaz e pairou no ar. Apenas sorriu. Engaiolou uma das cerejas dentro de sua própria boca e ficou sorrindo, os olhos perspicazes tentando compreender o momento único que se desdobrava naquela fenda de universo.
O rapaz trajava vestes elegantes e, sem perder a compostura, quis se impor. Com sua espada avermelhada, foi à luta. O primeiro golpe acertou em cheio o peito de deus que se abriu em tradições hispânicas e histórias pela metade sobre alguma viagem. Como num clichê de filme, o momento slow motion enfatizou a inevitabilidade da troca de fluídos e códigos corporais que não significam muito no segundo seguinte. Aquilo foi algo inacreditável. Lançados os dados, o jogo começara no Olimpo.

4:30AM

Ainda em contemplação, o rapaz, nas fichas finais, apostou tudo. Pensou ter perdido por um momento, mas virou a mesa na curva final e comemorou com um beijo enérgico que deixou uma tatuagem em forma de crucifixo na boca dos dois. E assim, colado a deus, fervilhou como um enxame irascível de abelhas. Agora e para sempre, queria mais.

5:00AM

Persuadiu a conhecê-lo melhor. Moveu-se voluptuosamente de um lado para o outro tentando evocar algum contorno semelhante em deus. Por fim, ainda apertados num nó constituído de fios de álcool, compraram passagens para visitar O Deleite. Partiram soltos e esquecidos pelo mundo, dispersos em suas próprias conclusões sobre aquele encontro. Se o mundo parou por um segundo qualquer, passou despercebido. O tempo corria muito depressa, antecipando o final dilacerador que incinera os deixados por deus. Até mesmo quando se encontraram debaixo das cobertas, não havia vestígios de futuras visitas. E não se vê deus duas vezes.

6:00AM

Tolamente comprimido em sentimentos e febril, o rapaz abandonou-se deitado como uma estrela. O riso transformava-se em escárnio agora que dependia apenas de si mesmo para tocar a vida. Surrupiou da memória um último relâmpago do sorriso perfeito da face de deus. Foi então que se deu conta. Ele viu a face de deus pela primeira vez na vida. Mal lembrava seu nome. Mas tocou seu rosto, seus lábios. Engatinhou para um turbulento sono juvenil e carente de sentidos. Abraçou aquele resquício de presença divina. Nem todos tem essa sorte.

8:00AM

Dormiu pouco. Não era sonho.
Acordou sorrindo.